Especula-se muita coisa, e muita tinta tem corrido. Tem-se comentado coisas terriveis, até porque ainda todos nos lembramos muito bem da "pequena Joana", e do que lhe aconteceu...
Como cada cabeça sua sentensa não podemos dar total crédito a tudo o que ouvimos na comunicação social, mas tenho-me vindo a lembrar cada vez mais de um episódio da minha vida que aconteceu à mais de trinta anos, mas sempre ficou muito presente:
Os meus avós viviam num bairro antigo de Lisboa. A casa era já centenária, igual a tantas outras que ainda existem e que as janelas ficam a meio metro do chão da rua.

Tinha mais ou menos cinco ou seis anos, e um dia estava eu sentada no parapeito da janela á espera que alguma menina dali, chegasse para brincar. Estava proibida de sair dali pela minha mãe e avós, que constantemente me diziam que não podia sair daquela rua (que não é grande), que não podia falar com estranhos, e que não podia abrir a porta a ninguem. Como era um bocado (grande) "bicharoca" e não falava mesmo com ninguem não me custava nada cumprir aquelas imposições. Por isso ali estava eu completamente sosinha, sentada no parapeito da janela do quarto da minha bisavó, com as pernas para fora, e os pés quase a tocar o chão da rua. Em casa só estava a minha avó, que andava devagarinho, pois tinha uma tromboflebite em cada perna.
Naquela altura não havia a quantidade de carros que há agora, e aquelas ruas não tinham sido consebidas para essas modernices, por isso são bem estreitas.
Quando um carro entra na rua andando devagar direito a mim, e parando na diagonal e relação ao passeio, fiquei a olhar para ele curiosa. Era branco, e claro que não me lembro da marca. Mas lembro-me do rosto do condutor, e nunca me hei-de esquecer dele. Era de um homem magro e muito claro. Rosto oval e muito carrancudo. Não tirava os olhos de mim, e acho que foi isso que me assustou...
O outro homem que ia ao lado não me lembro do seu rosto, mas foi esse que me acenou com uma caixa de bombons, grande e linda.
-Anda cá, toma... é para ti!
Foi o que ele me disse, mas eu, como bichinho do mato que era, num ápice meti as pernas para dentro de casa e berrei a plenos pulmões pela a minha avó, enquanto corria ao seu encontro. Mas ela andava devagarinho, e quando lá chegámos, apenas havia caída no chão a caixa de bombons...vazia pois então. Do carro e seus ocupantes, nem sombras.
Não sei o que teria acontecido se eu fosse uma menina simpática, e tivesse lá ido...Onde estaria agora? Ou não teria acontecido nada?
Nunca saberei!
Mas sei que tudo isto não foi um sonho ou imaginação de criança. Lembro-me perfeitamente destes momentos, mas não faço deles um pesadelo, só os conto de vez em quando ás minhas filhas, para que elas percebam que nunca se devem aproximar de estranhos se eles as chamarem. O mundo não é uma roseira cheirosa e sem espinhos, pode até ser um lugar muito perigoso se não estivermos alertados, e atentos.
Quis partilhar esta experiência convosco, porque acho importante falarmos destas coisas escondidas no nosso passado. Todos temos a mania de dizer que "certas coisas", só acontecem aos ouros, mas esquecemo-nos que nós somos os outros para as outras pessoas, portanto não estamos livres de nada.



